Palavras ao Vento Literatura

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sábado, 24 de outubro de 2015

A TRAIÇÃO DA BOAZUDA LOURA

Nunca deixo de observar os meus queridos vizinhos. Esta minha fase definitiva de eremita da montanha, oferece-me os melhores ângulos e as perspectivas mais favoráveis. Eles também devem me observar, mas estão tão entretidos com tanta merda que observam mal e de relance. Hoje vou falar da boazuda loura e não da loura boazuda porque de fato ela é mais boazuda do que loura. A lourice foi uma aquisição química, já a boazudice é dela mesmo.
Boa falava até um pouco grosso. Achei ótimo, aquela voz indicava grande presença de testosterona e por consequência muita vocação para o gozo. Sem medo de errar, posso afirmar que as mais completamente femininas, as mais estrogênicas meninas, são as que menos gozam. Para ter orgasmos múltiplos tem que haver um grave no tom. Risos, porém sérios.
Sempre via Boa pelas ruas do bairro meio que dando ordens. Certo dia, surpreendi-me pensando que ela era sapatão. Mas que belo sapatão. Ela, ele, era  todas as filiais da Mr. Cat. Será que ela era sapatão? E como cuidava do carro! Coisa de macho. Taí! Sapatus est!
Num sábado à noite, assustei-me ao vê-la/lo brigar com um moleque que estava encostado no seu lustradíssimo Fiat Palio.
- Vai procurar a tua turma! Se você arranhar o meu carro tá fodido, ouviu?- dizia ela/ele com aquela voz orgástica, um trovão de sensualidade.
Os dias se passaram percorrendo o bairro de cabo a rabo, subindo e descendo a ladeira. Entrava dia, saia dia e o Palio lá: lindo, limpinho e maravilhoso. De vez em quando caíam umas folhas que ela/ele se apressava em limpar. Que sapatão caprichoso! Que amor ao Palio! Que lindo pendão masculino! Como era "macha" aquela mulher quase loura!
Ao atravessar a rua, cruzei com ela/ele e notei uma leve protuberância abdominal. O sapatão estaria ingressando na ONG Barrigudismus Brasiliis? O Barrigudismo é um bando muito numeroso que tomou de assalto as ruas do Rio de Janeiro e do Brasil. Normalmente, o Barrigudista tem as pernas finas. Isso deve-se a uma ligeira queda na produção de testosterona e à sua imediata substituição por Skol.
Boa, continuava marchando pelo bairro e ocupando cada vez mais espaço. Que barrigão! Aquilo só podia ser outro tipo de fermentação. Impossível, cerveja produzir um efeito tão arredondado assim no abdomen. 
Domingo à tarde, tive certeza absoluta. Boa estava gravidíssima dos pés à cabeça e  eu não era o pai com certeza. Não se esqueçam que sou absolutamente contra qualquer forma de procriação. Milito no Movimento Agnóstico Orgamus Gratuitus ponto com, ponto final.
Numa tarde de muito calor, cruzo com Boa e sua ratazana. Uma mulher daquele tamanho tinha parido uma ratazana. Impressionante! Será que o pai era anão? Será que ela transou com um duende da Xuxa? Enfim, o mal já estava feito.
Instintivamente, dei uma olhada no seu Fiat Palio. Foi um choque. O Palio não tinha mais retrovisor do lado motorista, o escapamento estava no chão, a sujeira tomava conta daquele pobre corpo sensível e as folhas cobriam-lhe o parabrisas.

Pobre Palio traído por um bebê ratazana. Estava definitivamente provado, a Boa não tinha nada de macho. Um macho jamais tairia assim o seu possante.
Tenho arrepios ao pensar na volubilidade de Boa. E se algum dia lhe aparece um brinquedo mais interessante que o bebê ratazana?

domingo, 23 de agosto de 2015

Perdi todas as mulheres para o casamento

Encontrei o Aristides completamente arrasado. Cabisbaixo, pensativo, um pouco pálido, parecia que vinha  direto de uma sessão espírita psicografada.
- O que é que houve?
-  Tou meio down. Lembra da Graziela?
- Claro. 
- Pois é, ela tem outro cara.
- A Grazi?
- É. Você sabe que ela sempre quis casar. Só falava em casamento. Você sabe. Eu até comprei as alianças, mas eu não quero casar. Eu quero a Grazi. Não quero me casar. Nunca quis. Você sabe. Ela acha que o casamento é a evolução do namoro. Puta que pariu! Que mulher babaca! O casamento é a involução do namoro. Todo mundo sabe disso.
- Como você conseguiu ficar seis anos com uma idiota desse quilate?
- Porra! Sabe como é que é...... Inexplicável esse negócio. É difícil! Quando eu conheci a Grazi, fui bastante claro. Sempre lhe disse que não queria casar. Mas você sabe como é mulher, pensa que muda a gente.
- É camarada! Toda a mulher no fundo acha que homem é babaca. E na maioria da vezes tem razão. Eta raça babaca sô!
- Eu não sou babaca não.
- Não? Tem certeza?
- Num fode Joaquim!
Ali estava prostrado diante de mim, mais um macho preso nas suas próprias  teias hormonais. Sempre disse que testosterona emburrece. Eta hormoniozinho estúpido! 
Não sabia o que fazer para consolar Aristides. Resolvi tentar uma terapia de choque.
- Aristides, você não tá vendo que essa piranha te trocou pela instituição? Ela nunca quis merda nenhuma com você. Ela tem uma relação forte e profunda com a porra da sociedade onde ela nasceu. Só isso! Você nunca significou merda nenhuma para essa piranha.- disse, alterando a voz em tom de discurso
- Pô Joaquim, pô! Não fala assim da Grazi. A Grazi não é piranha. Que é isso?
- Não é piranha, mas o que interessa é que ela te trocou e você tá na fossa. Sai dessa!
- Fiquei sabendo que ela achou um cara que quer casar com ela de qualquer jeito.
- Então, que case, que acasale, que tenha filhos e que se ferre.. Você tem que ser mais independente rapaz. Tirando o sexo, o que é uma mulher pode te oferecer de tão extraordinário? O quê?
- Pô cara! Você tá esquecendo do amor, do afeto. Que é isso Joaquim!
- Puta que pariu! Você tá na pré-história do relacionamento homem- mulher. Amor? Que amor, rapaz. Que amor é esse ?  Bate na boca! Se amor é isso, eu quero que me odeiem. Eu prefiro o ódio. A mulher te troca porque tem compromissos com a instituição do matrimônio, porque quer dar satisfações à sociedade e caga em você. Você é um objeto miserável e ridículo para dar vazão à falta de imaginação dessa enquadradona. Pensa um pouco. Esquece a vagina dela. Esquece a bunda dela. Esquece. Pensa com um pouco de imparcialidade. Finge que você é assexuado. Finge.
- Cara, você tá me deixando confuso.
- Mas você é confuso Aristides. A sociedade humana é confusa. Eu estou querendo te trazer um pouco de light. Light, meu irmão.
- Vi no Face dela que ela vai viajar com o cara para Paris. E ela que tantas vezes me pediu para ir a Paris. Poderia ter ido. Não custava nada.
- Você é quem sabe. Eu continuo  te achando um idiota edipiano procurando nas mulheres o que elas não têm para te oferecer. A pessoa mais indicada pra te dar o que você quer é a tua mãe. Liga pra mamãe
- Vai se foder. Tu tá querendo me ajudar ou me derrubar?
- Tô querendo derrubar essa mitologia toda que te enfiaram pela goela abaixo quando você era puro e inocente. Para com isso! Vomita essa mixórdia que te meteram na boca. Tenta te reconstruir a partir das tuas próprias percepções, da tua experiência pessoal, do teu  amor próprio, da tua intuição e principalmente da tua inteligência. Este mundo faz a gente de bobo. Você não é bobo Aristides, você é babaca.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

MENTIRAS DE MECÂNICO

A velha expressão "mentiras de pescador" tem que ser urgentemente substituída por "mentiras de mecânico". Eta raça pra mentir!
A hiper-especialização condena as pessoas a um conhecimento profundo e estreito. Eu prefiro o eclético, um conhecimento superficial e amplíssimo. Sei que estou na contra-mão da história e das tendências. Não me importa. O pior para mim é  ser especialista em ventrículos e nem suspeitar das aurículas que estão tão perto. Encaminhamo-nos para este absurdo.
A hiper-especialização nos leva a confiar nos especialistas e expôr sem pudor a nossa total ignorância. E é pela nossa ignorância em certos domínios que nos sodomizam sem hesitação. Eu disse sodomizar, eu sou um cara educadíssimo.
Os especialistas"fazem-nos uma criança nas costas" porque o ser humano é impiedoso diante do mais fraco. Por você não conhecer minimamente o jargão do Direito, você é indecentemente enganado pelo nossos ínclitos e egrégios advogados, por você não conhecer o jargão da medicina, você é ou pode ser morto pelos nossos assépticos e impolutos médicos,(sempre achei que os médicos , os laboratórios e os farmacêuticos estavam mancomunados para nos ferrar) por você não entender nada de informática, você é surrupiado pelo pessoal das novas tecnologias e velhas vigarices e por você não conhecer mecânica de automóveis esses desgraçados te põem a pedir esmolas na praça.
Inventaram até a "rebimboca da parafuseta", a "mola da grampola", a "arruela da grapeta", para denunciar as práticas desonestas desses caras. Dia desses o meu último mecânico disse-me que o problema  do meu carro era a compressão no bico injetor. Fiquei na mesma, com uma cara de parvo olhando para ele. Que merda é essa? A explicação foi muito pior que a expressão. E aí, senti o dinheiro abandonar a minha algibeira. Fui roubado.
Vou escrever uma postagem sobre fobia à verdade. A nossa sociedade é "Veritófoba" ou padece de Aletéiafobia. É só mentira. Estou cercado de mentira por todos os lados. Só não sou uma ilha porque me obrigam a mentir também. E eu diga-se de passagem, amo a verdade, sou "Veritófilo".

Ao longo de trinta anos aproximadamente já tive muitos mecânicos. Quase ia escrevendo " já tive muitas amantes", acho que daria no mesmo. O projuízo seria quase igual. Todos os mecânicos que tive me roubaram à exceção de João que morava em Santa Tereza de saudosa memória. Que deus o tenha em lugar confortável e arejado.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

ESTRAGANDO O PERSONAGEM

No tempo em que fumar era gostoso e estava na moda. Na época do sol sem filtro solar. Na era do açucar e gente magra, exatamente nessa período,  eu namorei uma criatura vaginada que eu cognominei de Katiá de France.
O café da manhã de Katiá era vodka pura. Eu era muito jovem e primava pela babaquice extrema de macho debutante. Acho que foi com Katiá que fiz a primeira incursão no mundo da queratina e da matéria córnea. Os chifres enfeitam a hipocrisia desta respeitabilíssima Sociedade.
Katiá não era uma fêmea muito seletiva. Longe de mim afirmar que se tratava de uma vagaba. Longe de mim. Afinal eu nunca me esqueço dos intocáveis e dogmáticos preceitos do Politicamente Correto. 
Nesse momento da minha epopéia terrestre, acampava-se muito. Acampei demais. O que é a programação química e cultural para um garoto ingênuo! Aliás, eu sou do tempo da ingenuidade. Que saudades de pessoas ingênuas. Que saudades de mim. Que saudades dos diamantes brutos.

Foi num desses acampamentos que senti um aumento considerável de moléculas na minha queratina. Tive uma dramática altercação com Katiá e embora sofrendo muito acabei por deixá-la. E ela não me parecia nem um pouco desconsolada.
Nunca mais vi Katiá de France. Longos e vagarosos anos se passaram e nem sinal de Katiá. Até que um dia através de Filipão tive acesso ao e-mail de Katiá. Enviei-lhe um e-mail e trocamos telefones. Falei por telefone com ela e sua mãe e descobri atónito que Katiá agora era Evangélica e era quase minha vizinha. 
Pelo hímen sagrado da virgem Maria, pelo prepúcio não menos sagrado do salvador! Eu tinha namorado uma Pré- Evangélica.
Nunca tivemos muito a ver excetuando a genitália, agora então absolutamente nada a ver. Os telefonemas rarearam e deixamos de nos falar.
O tempo continuou arrogante e altivo o seu percurso.  Não conheço ninguém mais metido à besta que o Tempo; não dá bola pra ninguém e vai passando.
Certo dia, andando pelas cercanias do meu domicílio, quem eu vejo acompanhada de uma  mulher pitoresca, ninguém menos que Katiá. Estava na mesma. A vodka conserva.
Abri os braços e exclamei muito entusiasmado:
- É ela! É ela!
A mulher que estava do lado dela muito coberta para o calor que fazia, olhou-me com ar inquiridor e surpreso. Katiá de France apressou-se em dizer:
- O moço das compras tá lá nos esperando. E continuou a caminhar. Sem nem ao menos me dar um beijo ou um aperto de mão.
Estava claro que Katiá não queria falar comigo por causa da filhote de Aiatolá que a acompanhava. Fiquei decepcionado. (Mas a decepção é uma decrépita e engelhada conhecida. Trato a decepção com a mais descarada intimidade.) 
Estava tudo muito claro para mim. Afinal, eu era um emissário dos anos oitenta e trazia na bagagem muitas histórias de bebedeiras e farras para contar.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O HINO E O ÂNUS DO REI


QUANDO SUA MAJESTADE LOUIS XIV ADOECEU

Parece que uma vez, ao sentar-se no seu coche, Luis XIV ter-se-ia picado na ponta de uma pena da almofada do assento, a picada infectou e causou um pequeno abcesso no ânus que devia ter sido logo aberto e drenado.
Os médicos do rei, receosos de intervir nas bases da monarquia, optaram por um tratamento mais leve à base de unguentos. Este tratamento não deu qualquer resultado e ao fim de quatro meses o rei continuava com o abcesso e com dores insuportáveis.
Em meados de Maio os cirurgiões diagnosticaram uma fístula o que os deixou transtornadíssimos e finalmente o 1.º cirurgião, Félix de Tassy, decidiu-se por uma intervenção para abrir o abcesso. Para isso desenhou um instrumento especial, uma verdadeira peça de ourivesaria com lâmina de prata.
Mas foram precisos mais 5 meses para fabricar esse instrumento precioso.
A operação só foi feita no dia 17 de Novembro, sem anestesia, e foram necessárias mais duas intervenções porque foi muito difícil fechar a ferida para que pudesse cicatrizar.
Só no Natal de 1686 os cirurgiões declararam o rei como curado o que pôs fim aos rumores que no estrangeiro já corriam de que Luis XIV agonizava.
Como acção de graças foram rezadas muitas missas em todo o reino e as Senhoras da Maison Royale de Saint-Louis, em Saint Cyr (colégio interno feminino criado por Mme de Maintenon) decidiram compor um cântico para celebrar a cura do rei.
A superiora, Mme de Brino (sobrinha de Mme de Maintenon), escreveu os seguintes versos:
Grand Dieu sauve le roi !
Longs jours à notre roi !
Vive le roi. A lui victoire,
Bonheur et gloire !
Qu'il ait un règne heureux
Et l'appui des cieux!

Os versos foram entregues a Jean-Baptiste Lully para que este compusesse a música e as meninas de Saint Cyr passaram a cantar este pequeno cântico sempre que o rei vinha visitar o colégio.
Anos mais tarde, em 1714, o compositor Georg Friedrich Haendel, de passagem por Versalhes, ouviu este cântico e achou-o tão belo que tomou nota da letra e da música. Mais tarde, já em Londres, Haendel pediu a um clérigo chamado Carrey para lhe traduzir os versos de Mme de Brinon.
O padre traduziu-lhe de imediato a letra e escreveu estas palavras que iriam dar a volta ao Mundo:
God save our gracious King,
Long life our noble King,
God save the King!
Send him victorious
Happy and glorious
Long to reign over us,
God save the King !

Haendel agradeceu-lhe e dirigiu-se de imediato à Corte onde ofereceu ao rei - como se fosse de sua autoria - o cântico das Meninas de Saint Cyr.
George I, encantado, felicitou o compositor e determinou que daí em diante o "God save the King" devia ser sempre executado nas cerimónias oficiais.
E foi assim que este hino, que nos parece profundamente britânico, nasceu da colaboração:
- de uma francesa (Mme de Brinon),
- de um italiano naturalizado francês (Jean-Baptiste Lully - ou Lulli) ,
- de um inglês (Carrey),
- de um alemão naturalizado inglês (Georg Friedrich Händel - ou Haendel).
- do ânus de Sua Majestade Luis XIV.

De fato, um verdadeiro hino europeu!
Duas questões:
Se Louis XIV por acaso não tivesse enfiado uma pena no real traseiro, qual seria hoje o hino britânico?
Acham possível que a partir de hoje possam ouvir o "God save the Queen" sem pensar naquela pena?

quarta-feira, 17 de junho de 2015

POEMA DA ETERNIDADE



Poema da eternidade
 Moro num corpo que não é meu
Alugo o tempo, as tripas e o coração
Defeco, amo e odeio
Esta é a minha condição.

Vivo num espaço que não é meu
E às vezes, eu sou ateu
E quase sempre sou de ninguém.

Mas afinal quem sou eu?
Eu que me observo e não sou eu
Eu, habitante de um corpo que não é meu
Nada é meu.
Nem o devaneio que acabei de fabricar
com as sombras e o breu da noite
Nem é meu este resto de sol
E nem é meu o brilho do olhar da mulher
que me escolheu
Muito menos o zumbido das moscas
que sonorizam estas tardes de verão.

Moro num corpo que não é meu
Morro num corpo que não é meu
E qualquer dia
Depois de amanhã(se amanhã houver)
O corpo é teu
O corpo é teu
Ó terra profunda e maldita
que dás a vida e hospedas a morte
O corpo é teu
Ó terra traidora e bendita
O corpo é teu.

E quando eu for o adubo da terra
Viverei para sempre
Nos sulcos das folhas
 Na seiva dos caules
 No perfume e no sangue das rosas.

Eu serei da terra
Eu serei a terra
Estarei vivo
Nas avalanches
Nos terremotos
Nos vulcões
e nos maremotos.

A Eternidade não transcende a terra
Deus não mora no céu
E as estrelas que cintilam lá no alto
não são para mim.

A Eternidade
Tem a idade da terra
A Eternidade é a terra
A terra é eterna.



sexta-feira, 12 de junho de 2015

POR UM TRIZ

Sol nascente - Claude Monet
Bendita seja a nossa urina matutina
Prova úmida da vida que nos fascina
Penumbra de mais um sol, mais uma mina 
Descerrar de uma cortina.

Começa a farsa
Começa a trama
Eu sou teu comparsa
Tu és minha dama
E lá vamos afoitos, despertos, em chama
Fugindo da lama
Driblando o drama
Farfalhando teus bicos, tuas pontas, a tua mama
Querendo escrever histórias nos anais da nossa cama.

É hora dos gemidos, dos gritinhos, dos ais
Hora de sermos animais
Hora de atender aos teus soluços carnais
Ao clamor dos teus canais
Às tuas dobras fatais.

Agora estou feliz
Estou radiante pelo que te fiz
Mas já basta de beber dessa matriz
Esgotou-se o script, pode deixar de ser atriz
Nos meus espaços de dentro, algo me diz
Que é infeliz
Ser feliz
Só por um momento, por um tempo, por um TRIZ.

Mas é preciso ser feliz
Isso me desatina
O que é que eu vou fazer
se é aí onde tudo culmina?

..........................................
Só me resta recomeçar e descerrar a cortina
Bendita seja a nossa urina matutina.

sábado, 6 de junho de 2015

A VIDA É BELA

A VIDA É BELA
Estou em algum lugar da minha odisséia. Estou no asfalto, nas praças e no lixo das valetas. Cobre-me como um guarda-chuva burguês ou chinês( e a esta altura, a incoerência não tem apenas pregas nos olhos)um falso azul de céu profano. Não mudo muito de lugar, a minha aventura não vai além dos ônibus. Converso com o Bairro, falo com o oxigênio que respiro. Até onde e até quando terei humanos na minha calçada? Até quando terei memória?
Olho para estes dias lavados com Ariel(o mais novo milagre na luta contra as manchas metafísicas ) e tenho sempre a impressão de que fui mais uma vez enganado pelo branco total de OMO. Pouco importa! Não interessam estes óculos que carrego em lugar tão vago. E para quê ver se a ordem que vem das Brasílias é subvencionar as míopias. Os cegos estão isentos de I.C.Ms. Fecharam todas as óticas e eu sou um dos clandestinos que carrego esta armação tão sutil em lugar tão vago. Foram os estrábicos que fizeram a vida bela. A vida é bela! Quanta beleza há nos olhos dos viram apenas as rosas. Quanta alucinação há nos olhos dos que não viram o morto. Eu vi o morto e as rosas de praxe. Eu vi quase tudo e só parei de olhar para não ser pego de óculos na mão.
Eu nasci de óculos. Trago não sei de onde os óculos inatos da minha genética, da minha ética e do meu inconformismo. A vida é bela! Como a vida é bela! A propaganda nazista da beleza penetra o cristalino e as cataratas dos que insistem em dizer que enxergam.
Definitivamente temos que internar os que usam óculos.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A PARÁBOLA DA AVENIDA BRASIL

Chovia torrencialmente no Rio de Janeiro. Rios caudalosos se formaram em cerca uma hora. Ônibus cheios de pobres atravessavam os rios fazendo ondas e humilhando os carros de passeio. Estou usando a palavra ônibus porque sou muito bonzinho. Na realidade, a cidade do Rio de Janeiro nunca teve um só  ônibus; são todos Caminhões para pobres tratados como carga. Eta cidade maravilhosa!
E é neste dilúvio vespertino que encontramos o nosso querido Aristides Kelson de Souza. Andava devagar no seu Gol Caixinha um ponto oito que um dia já tinha sido vermelho. Agora ostentava uma cor indefinida. Era um carro pintado pelo sol e a chuva que o castigaram durante décadas. Isso para não falar dos riscos feitos pelos vândalos filhos da puta. A chuva não cedia e ele tinha que chegar a Bonsucesso.
Na Avenida Brasil onde transitava, muitos carros já tinham pifado. Que chatice! O seu Golzinho resistia bravamente.
A visibilidade era quase nula em alguns momentos. E foi num desses momentos que Aristides se viu completamente perdido em meio ao temporal. Tinha errado uma "agulha". Andava, andava e não sabia mais onde estava. Prestava atenção no volante e ao mesmo tempo procura uma placa ou alguém que o ajudasse a saír daquele pandemônio.
Aristides quando ficava nervoso passava a mão várias vezes no cabelo como se o tirasse a testa. E a chuva não parava. Sentiu que do lado do carona havia água no assoalho. Reconheceu que aquele carro que tanto adorava estava mesmo ficando podre.
Súbitamente surgiu da penumbra um senhor de terno bege ou branco. Aristides ia muito devagar. O homem se dirigiu a ele e lhe perguntou:
- O senhor está perdido?
- Estou completamente perdido. Não sei mais onde estou.-respondeu
- Mas para onde vai?
- Eu estava indo para casa em Bonsucesso.
- Então, pegue a primeira à direita, faça o contorno, suba o viaduto e depois é sempre em frente.
- Muito obrigado. O senhor salvou a minha vida.
- Boa sorte.
Aristides cumpriu à risca o que o homem misterioso lhe tinha dito. Depois de muito andar, notou que a chuva tinha abrandado. Entretanto não reconhecia o lugar em que estava. Que lugar era aquele? Ali não era Bonsucesso.
Do nada, apareceu-lhe o homem misterioso da Avenida Brasil que exclamou satisfeito:
- Viu?! Conseguiu chegar em segurança. A chuva já parou e o senhor está salvo.
- Mas..... este lugar não é Bonsucesso. Que lugar é este?
- Que importância tem isso? Todos os lugares são iguais.
- O senhor vai me desculpar, mas eu não moro aqui. Não conheço este lugar.
- Prefere voltar para a Avenida Brasil? Aqui é bem melhor. Ou não é?
- É, né! Mas como se chama este lugar.
- Aqui é o famoso bairro de Cordovil.
- Cordovil? Mas eu moro em Bonsucesso.
- E daí? Você saiu do temporal e está a salvo. Isso é que interessa. Aqui você vai conhecer muita gente boa. Você vai ser amado pelo pessoal. Aqui é o seu lugar. Nunca mais você vai se perder. Esteja certo.
- É.....Legal!
- Ah, já ia me esquecendo. O senhor pode ficar aqui à vontade. Sinta-se em casa. Cobramos apenas dez por cento do seu salário. Apenas isso.
- Dez por cento? Do meu salário?

Hoje Aristides Kelson paga para achar que se achou. Afinal qualquer coisa é muito melhor que a consciência e o sofrimento da perdição.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

OBSESSÃO


São as pombas
São as bombas
São as trombas da criação

São os ratos
São os fatos
São os tratos da inanição

São os rombos
São os tombos
E os lombos da perdição

São os casos
Os descasos
E os vasos da imensidão

São os passos
São os traços
E os fracassos da multidão

Muito raras
São as caras
Não as taras da ocultação

Muita estética
Muita técnica
Nossa herética visão

E que pena
Não havia cirurgia
P'ra agonia do coração

São Marias
Avarias
E utopias de pés no chão

E os amores
São clamores 
E favores da tua mão

E a procura
Não tem cura
por ser pura OBSESSÃO.

terça-feira, 2 de junho de 2015

O TREM PARA JAPERI

"Há um eterno ir e vir, despedidas e um quase sempre nunca encontrar."
Franz Kafka
A vida é uma  longa Estação estreita. Idas e vindas, encontros, conflitos e muitos desencontros. Estão todos na Estação. Enquanto há vida, há Estação. Muita maledicência, muitos mal entendidos e algum bom senso. O problema e o pior é na hora de pegar o trem. Que trem pegar? Para onde vai o trem?
Os trens da vida são cronológicos. Na época boa, na minha época, aos vinte e poucos anos era quase obrigatório pegar o trem para Japeri. Era um frenesi na Estação, um alarido ensurdecedor para pegar o trem de Japeri. As malas se amontoavam pelos cantos. Muitos beijos na boca, profusas carícias e promessas de amor eterno. Só não havia crianças para aperfeiçoar o burburinho.
Japeri era práticamente um Shangri La. Tudo era lindo em Japeri. Tudo era bom e transformador em Japeri. Japeri era uma tentação irresistível sobretudo porque todos iam para Japeri. Nessa ocasião, apesar da pressão social e da publicidade massiva e torturante fiquei na Estação. Nunca gostei de multidões alucinadas. Para ficar na Estação, era preciso muita coragem.
Resisti bravamente aos encantos de Japeri. Era um promessa de felicidade na qual nunca acreditei. Sou incrédulo por convicção. Foi duro ficar anos e anos na Estação. Passavam muitos trens para Japeri. Mas Japeri definitivamente não era o meu destino. Vaguei décadas como um espectro na Estação. Ninguém entendia a minha renitência. Era terrívelmente adjetivado. Chamavam-me de maluco, de esquisito, de pirado, etc. 
Passavam muitos trens, mas todos para Japeri. Era penoso viver na Estação. Contentava-me em conversar com alguns Anti-Japerianos vagabundos que dormitavam nos bancos e povoavam a Estação. A maioria estava em Japeri. Nós, os da Estação, tinhamos um certo desprezo pelos festivos e delirantes moradores de Japeri.
Esperei pelo MEU TREM anos a fio e ele não chegava. 
Lá pelas tantas, começaram a chegar os Dissidentes de Japeri dizendo que Japeri não era  nada daquilo que propalavam. Os dissidentes eram o conforto da minha escolha. Os que ficaram em Japeri, só ficaram porque primavam por salvar as aparências. Os dissidentes vinham carregados de filhos e decepções. Os casais já não se amavam tanto. Era um pessoal angustiado e muito mal humorado. Muitos edílios foram desfeitos. Aos poucos a Estação foi ficando cheia de gente. Eram os infelizes dissidentes de Japeri.
E eu continuei na Estação.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

AS CRUZES DO PICADEIRO

Este poema é rigorosamente proibido
   para espermatozóides, fetos, falecidos
                   e analfabetos.      


É proibido pisar na grama
É proibido xixi na cama

É proibido falar - Silêncio - Hospital
É proibido ser pobre - Pecado Capital

É proibido falar fino, ser feminino e homessexual
É proibido ser narigudo, barrigudo e desigual

É proibido furar a fila
É proibido o fedor da axila

É proibido mostrar a dor, o sangue, a arranhadura 
É proibido correr, soltar-se e rebolar a dentadura

É proibido tirar meleca do nariz
É proibido ser feliz

É proibido não acreditar nas cegonhas e seus motores, nos bebês voadores
É proibido "dados os fatores", expormos nossos corpos, nossos bumbuns, nossos pudores

É proibido dizer "Penico"
É proibido soldar os buracos da civilização de lata; aliás, quebrou-se o maçarico

É proibido conduzir na contra-mão
É proibido acalmar o sexo com a mão

É proibido não levar chifrada - VIVA O ESTOURO DA BOIADA
É proibido cara lavada - VIVA NOSSA LOUCA E DIÁRIA PALHAÇADA