Palavras ao Vento Literatura

Mostrando postagens com marcador Edson Floyd. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Edson Floyd. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O QUEM SEJA EU (?)





É por existir um mundo de sombras, o qual é eventualmente
visitado pelas luzes do existencialismo, talvez delineado pelo
humanismo, ou ainda mais, seja filho do positivismo, quando em
mim surge um infinito de lástimas em prol de nossa vã filosofia, a
qual tanto amo e que me basta como ser imaginário de mim.

Esse mundo vigente é onde não me abrigo, pois eis que não caibo mais
em mim; consolidei-me como uma horda de auroras em minhas sinapses.
Existe, por assim dizer, um ser em meu Ser a se alimentar de
minhas intrínsecas súmulas, onde resulto em minhas fadadas
idéias, e esse ser será o meu anseio futuro.

Há em mim um desejo inexorável, filho de uma necessidade
titânica de deglutir a solidão e a dor de não ser.
Há em mim um milhão, setecentos e trinta e dois mil, duzentos e
treze personalidades esquizoides, todas elas lutando, para não
se tornarem uma só, tal qual sou obrigado a assinar (ou assassinar-me ?)

Há em mim uma lágrima por ser quem sou.
Às vezes tenho lapsos de razão, e nesses afãs de lucidez,
canoro verborreando as mais lindas capelas de amor.
Não consigo perceber como de uma alma tão confusa quanto a
minha, pode florescer essa luminescência que cega aos olhos do
espírito e destrona a razão.
Talvez seja a falta desse brilho a noite escura cantada
agonicamente pelos místicos.
Talvez seja a perfeição do olhar, ou o olhar da perfeição.
Talvez seja uma palavra esperando tradução.
Talvez estejamos vivos, mas como viver se o talvez seja a nossa
única certeza?

Viver nesse mundo de sentidos e necessidades é como está
sedento em frente ao mar: água, muita água e, no entanto não
se pode beber, só contemplar a pele liquida do planeta.
Em outras palavras, ver a vida e não poder modificá-la e ter que
aceita-la tal como ela é, ou seja, viver parar morrer e nesse curto
tempo, escrever uma história de vida.
Essa imensa voracidade oceânica da razão devora todos os
sonhos.

Por mais que eu resista, a aluvião dos sentimentos pretéritos me
corrói por dentro, e busco decantar meus mais íntimos humores.
Às vezes tenho ganas de mergulhar com todas as bruxuleantes
alvoradas para a escuridão de meus breus pensamentos
reprimidos, e crer que minhas idéias não passam de fogo-fátuo
em meu oblíquo e estrábico horizonte.
Minha mente, mente ao guardar em si a semente do amanhã
incerto.
Já se imaginou o que fazer hoje se morasse em nós a certeza
de que o amanhã nunca chegará?

Para me distrair desse mundo antropofágico de sonhos eu
transporto almas com Caronte, filosofo com Nietzsche,
domestico quimeras, guio Dante, navego com Ulisses, crio com
Dalí, janto com os apóstolos, perco-me em Creta, discordo de
Descartes, piloto o Enola Gay, aprendo com Trimegistus, calculo
com Estein, aventuro-me com Jasão, cavalgo com Centauro,
esculpo com Rodin, agasalho-me com o novelo de ouro, ilumino-me
com Rá, jogo moedas com Fortuna, concordo com Marx,
queimo-me com De Molay, sorrio da vida com os suicidas,
espelho-me em Narciso, interpreto com Shakespeare, balanço-me
com Quazímodo, toco com Bach, desafio Zeus, amo Psiqué,
decifro Delfos, Cirurgio com Mengele, estudo com Aknathon,
sirvo com Hermes, engano Hades, banho-me com Iemanjá,
brinco com todos os volts, invado com Átila, choro de medo com
Jesus, durmo com Hipnos, alimento Sérbero, conquisto com
Napoleão, danço com Fauno, defendo Judas, sacio a sede nos
jardins suspensos, componho com Mozart, convenço Arjuna, fujo
com Enéias, pinto com Van Goch, medito com Sidarta,
transmuto chumbo em ouro com Paracelso, entendo-me com
Freud, inicio-me com Crowley, viajo para Orphalese, incentivo
Lênin, assisto Goeth, acalmo a tempestade com Eolo, escondo-me
com Ali-Babá, pesquiso com Darwin, empalo com Vlad, e
como penso estar me usando para algo que reste, em mim para
algo ou alguém; vivo uma eternidade finita de sentimentos, e
tenho a vida por um fio de sonho, já que o oxigênio da vida é
droga necessária para não implodir.

Oh sofreguidão.
O mundo lá fora com suas cobiças.
Essa luta insana e desigual pela sobrevivência animal.
O mundo a me gritar o que é belo e funcional, e o que me fará
feliz na moda da próxima estação consumista.
E eu aqui, entre essas paredes de planeta a pensar que penso e
tentando me abrigar desse frio que faz dentro de meus átomos,
me pergunto em quase todos os segundos o que fazem as
pessoas para serem tão iguais, e o que fazem as pessoas
parecerem tão iguais.

Não consigo ver o que eles enxergam.
Não consigo rir do que eles acham graça (talvez eu seja o
palhaço da vez?).

Não participo de suas guerras de injúrias.
Não me comprazo na dor maquiavélica do inimigo vencido.
Não consigo deixar de ser eu mesmo, esse ser desconfiado,
casmurro, taciturno, urilófilo, onicófago, apocopado no linguajar,
anarquista, mitômano, colérico, sanguíneo, melancólico, lério,
xenófilo, visceralmente lerdo, pachorrento, alcoolista, solitário,
absintado, niilista, humoristicamente volátil, descreditado,
reclinado, palrador, túmido, leigo, introspectivo, tetra-pentadátilo,
claustrofóbico, pseudolépido, progressista, sorumbático,
xifópago de mim mesmo, desacreditado, dispendioso... Ou seja,
um pitecantropo na solidão da megalópole, pois eis que sou um
universo de cismas retráteis no vai e vem dos meus raros
momentos de paciência.

Amo o que posso amar.
E amo as elegíacas prolixas a figurarem no epitáfio de minha
futura cova rasa.
Amo as esferas perfeitas sobrepostas sem deslizes.
Amo a arte pictórica de um surrealismo expressionista.
Amo as notas clássicas, barrocas e românticas a impregnarem
em meus poros e a decantarem-se em perfeitas vibrações nos
humores do meu ser, não se necessitando de populares axilas
para serem conhecidas.
Amo os primitivistas, pontiadores de telas rústicas com talento
que superam as formalidades acadêmicas.
Amo as amplitudes quânticas não observadas.
Amo o sonho de Quixote pela virtude e verdade.
Amo a lição perfeita de Al-Mustafa.
Amo o feio discriminado.
Amo o abstrato do surrealismo analisado pelo racionalismo do
existencialismo.
Amo os Ichthyosaurus e os Pleisiosaurus em sua luta no oceano
do interior da terra.
Amo o trovador errante do Nordeste porquanto se dar o direito
de falar errado do certo, pois sei que não há entre os vivos quem
fale certo do errado.
Amo Zarastutra, amo o seio materno, amo Ecco, amo a luta de
Zumbi, o céu até onde posso ver, as obras de arte, amo
segredos, o Lácio expansivo de minha mente, toda as magias, a
luta contra a fome, a revolução social, o povo oprimido
que não se satisfaz na lama, a justiça entre os desiguais, todos
os bons livros, amo pessoas distantes, amo o que a maioria
odeia.
Amo o que posso chamar de nosso e amo o caminho do amar.
Faço amor com versos e prosas, transo com rimas e sonetos,
durmo ao lado de poemas e poesias, estupro odes e
redondilhas.
Almoço tempo, janto espaço e arroto vida.
Faço amar quem precise se enganar.
Como um envenenado trago em mim o ódio por aquilo que me
mata.

Odeio nulidades.
Odeio bazófia.
Odeio imposições.
Odeio impugnações.
Odeio o plano divino do livre arbítrio condicionado.
Odeio o engodo sofismático do amor.
Odeio o capitalismo excluídor.
Odeio a esquizofrenia incompreendida de Nabucodonosor.
Odeio a mentira da vida imposta.
Odeio o grande irmão.
Odeio a inércia da vida eterna.
Odeio ter que odiar, pois tenho minhas necessidades, e delas
não posso fugir.
Pois eis que por carbono, eletricidade e água, existo.
Por ilação, penso.
Por ebulição, falo.
Por inalação, sinto.
Por mister, vivo.
Por osmose, alimento-me.
Por poemas, defeco.
Por letras, rastejo.
E por eflorescência, sou esse ser díspar.

Quase todas as eras, irrompem em mim vulcânicas primaveras.
São herbáceas araliáceas, muitas vezes ramnáceas, a brotarem
em frágeis ramos de minha flora decadente.
Procuro fixa-las em um retábulo, e no exercício de iluminuras do
livro da vida, copiá-las em pergaminhos atemporais contadores
de minhas histórias.
Procuro na beleza das flores e das borboletas, as obras primas
da arte universal.
Eis que essas duas criações da física quânticas são as mais
belas das galáxias, observo alimento e predador a fundir-se num
rápido balé para o sexo oral, onde a beleza transpõe a
sobrevivência, e os lepidópteros satisfazem seus prazeres
orgânicos no gozo da monocotiledônea.

Suas cores e movimentos, na paleta azul do céu sem limites, e
no limitado alvoroçar nos campos, tornam a vida menos cinza.
Lá, nas paragens perfumadas dos jardins baldios, estão
acoplados em um amor silencioso.
Na sua rotina divina eles são assim diretos, diáfanos em suas
asas e flores, irresponsáveis pelas bombas nucleares e eu de
cá, a mirá-los dentro de uma prisão de carne, ossos, dentes e
pelos.
Observo o vento pentear a cabeleira multicolorida no sopé do
monte, qual titã quando se eleva do solo cobrando sua presença
na pele da terra.
No campo de flores que o circunda, os girassóis estão prontos
para serem modelos para a paleta de um gênio louco.
A arte que o mundo nos dá, é aquilo que podemos perceber,
pois como não pressupor a residência de emanações
inconsciente, que igual a chuva no mar, soma muito ao que já
existe em abundância?
Durante o tempo que temos para dizer que vivemos, aprendi que
esse mundo não ensina nada.
E se alguém deseja aprender algo, que seja consigo próprio,
pois não há nada que nos seja dado que já não exista em nós
mesmos.

Aprendi que erro e loucura são as mais puras verdades, só que
ao contrário.
Aprendi que o amor é um mal necessário, pelo qual se morre
para reviver das cinzas que restaram.
Aprendi com as crianças que as melhores perguntas são as sem
respostas e feitas agora.
Aprendi que a diferença entre visão estática e frenesi impositivo,
é muito pequena.
Aprendi observando a morte que a vida é apenas um ato na
longa tragédia da vida, e que o show tem que continuar.
Aprendi que sendo eu, sou tudo aquilo que não sonhei ser,
exceto que o mundo quis que eu fosse.
Aprendi com as letras que as palavras são imagens oníricas.
Aprendi a aprender para não me prender em mim mesmo.

Não sei porque penso viver, e nem tenho essa certeza, se
certeza existe e é essa.
Nunca encontrei nenhuma oxalidácea que me desse à sorte de
não ter sorte.
Nunca vi o mundo sem dor.
Nunca pisei onde nunca estive, mas sempre pensei em estar lá.
Nunca fiquei de bem com a dor.
Não encontrei paz na guerra.
Nunca vi beleza na dor retorcida.
Nunca fui a favor da morte para a vida.
Nunca estive do lado do vencedor.
Nunca, na verdade, eu fui eu mesmo.

O que quer eu seja eu, trago em mim esse mistério infinito e
indecifrável do que penso ser, e no fim dessa leréia textual,
acabo sendo essa coisa sinistra que minha mãe chamava de
filho.
Por tudo que vomitei nessas letras, não consigo ainda pensar
que a vida tem sentido de ser.
E no fim, como um condenado que faz o soturno e derradeiro pedido,
suplico que o meu réquiem seja ao som do silencio do sorriso,
pois eis que mais um ser, com sete metros de intestinos abaixo de sete palmos de terra, vai
infectar a terra que alimenta as flores.
Vamos pensar viver, dias melhores talvez não venham.




É Isso.

Edson Floyd.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O PIANO






Atenção, muita atenção,
Vendo urgente, muito urgente um piano alemão
Que toca forte e toca fraco, em perfeita afinação
Toca clássico e toca tango, toca rock e baião
Toca tudo que vier, toca até samba canção
Esse piano não perde uma nota, nem sequer por um milhão.

Vendo urgente, muito urgente, um piano alemão
Um piano de família, um instrumento de tradição,
Mas se queres saber porque tenho de me livrar dele,
Vou te dar uma explicação:
É que na casa aqui ao lado vive uma menina que não gosta de
solidão,
Mas que vive presa a um trabalho, onde lava louça, passa roupa
e esfrega o chão,
Tudo isso para deixa brilhando, a casa do patrão
O qual não tem vergonha na cara, de explora uma criança sem
opção
Que adoraria ser moça limpa, e viver uma paixão, mas que
passa o dia inteiro, escutando o piano alemão.

A menina da casa ao lado, às vezes olha com aquele olhar
pidão, como quem diz para diz vida: chega dessa humilhação.
Por que não posso viver uma vida bela, e não mais essa
perturbação? De ter que me baixar para um velho,que faz meus
sonhos parecerem vão?
Por isso vendo urgente, muito urgente, meu piano alemão.

É que na casa aqui ao lado vive uma mocinha a sonhar,
A qual adora as melodias que do piano lindo e grande, eu me
ponho a executar.
E sei que ela escuta quando toco Chopin, Mozart e até Bach,
Mas que também gosta quando toco Cartola, Guerra Peixe e
tico-tico no fubá.
Sei que o velho também escuta, e que quer determinar, as que
horas essa menina der-se o direito de sonhar, pois ele acha que
por pagar um mísero ordenado, ela tem satisfação a lhe dar, e
quer agora dizer o que a menina tem que ouvir, o que ela tem
que engoli e o que tem que gostar.

Velho besta aqui representando o teu e o meu patrão, o qual
deve ir para extinção, pois não pode alguém pagar 30% pelo que
produz a tua mão, e ainda fazer o povo pensar, que emprego é
um favor daqueles de bom coração.
Povo mesquinho e porco, esse que tem medo da revolução, que
diz que todo peão é burro, e bom só ele que é patrão, o qual
soca dentro de uma fábrica quente, um desprotegido
trabalhador, lhe insuflando dentro do peito, pó químico e
benzeno, sulfeto de cobre, ácido e zarcão.
E lhe poda a felicidade dizendo que lá fora é que é o um mundo
cão.
Mas um mundo por ele construído, por tanta ganância, hipocrisia
e ambição.

Mas não vamos fugir da linha do poema, e vamos vender o meu
piano alemão.
Quem sabe assim a menina aqui ao lado, vive uma vida sem
tanta aflição.
Tadinha não tem nem amor, e por companhia só o rodo, a
vassoura e o esfregão.
De meio dia come arroz cheio d’água e uma medida de feijão,
quando cai à noite gelada, é uma cuia de sopa e meio pedaço
de pão, e ainda tem eu na casa ao lado, dedilhando o piano
alemão.
Se bem que até certo ponto, posso até diminuir sua solidão,
executando peças tão lindas, as quais trazem a tona um pouco
de felicidade e palpitam um coração.

Fico imaginando ela na sua cama dura, e eu cá no almofadão,
sentado a frente de um teclado mais branco que um copo de
requeijão.
Atenção todos, vendo urgente um piano de jacarandá, do qual
sua madeira saiu do Brasil para Alemanha, e está aqui na minha
frente, esperando o que vou executar.
Acho que devo tocar uma sonata bem triste, a qual acabe ré, mi
ou fá, mas que deva ser bem melosa, e faça meu peito se
acalmar.
Uma música cheia de sustenido e bemol, escrita em clave de
Sol, com oitavas e semifusas, com lá e ré menor, e que tenha no
fim um dó grave, o qual me faça pensar como é ruim se está só.
De como é péssimo dormir e acordar, sem poder curtir o sol, de
como é horrível viver assim, com a garganta dando um nó,
vivendo dia após dia como se a vida fosse suco de cicuta com cipó.

E digo isso porque no Brasil todo peão trabalha para sustentar
luxo de patrão, o qual anda de limusine, galopa puro sangue,
mas garante que dinheiro não o fez ficar pior, mas se ele brigar
com um cachorro rabugento, eu não sei quem é o melhor.
E o coitado do peão, vive sendo empurrado a morar numa
favela, cheia de rato, barata e merda na rua, enquanto o chefe ri
daquele que calça chinela, daquele que vive a realidade crua.

E o poeta Cazuza já dizia que enquanto houver burguesia não
vai haver poesia, então como achar graça da vida de quem
trabalha até se por a lua?
Sabe caro leitor, esse poema e mais um desabafo do que arte,
porque não dá para viver em casa, sabendo que a peãozada,
não pode nem comprar carne, enquanto o patrão come lagosta e
caviar, perfumado com Lancaster.
E como fica por fim, a menina da casa ao lado?
Como fica então a venda desse piano lindão?

A verdade é que não existe piano e nem menina, e eu inventei
tudo para chamar a tua atenção, para te dizer que mundo
dividido em rico e pobre é pura aflição, pois o rico sempre se dá
bem, e pobre fica com a humilhação.
Mas se eu tivesse um piano, grande e bonito e ainda por cima
alemão, te digo que transformaria ele rapidinho em cifrão, pois
aqui na minha casa não tem lugar para símbolo de patrão, pois
sou peão daqueles que acordam cedo e tem que chegar na hora
do cartão, para não ser descontado, o tempo que passei dentro
do busão.

Mas ainda assim posso falar, que devemos vender os pianos
alemães e acabar com essa guerra injusta, onde uma criança
tem por fralda um pano, e outra uma cheirosa calça enxuta,
onde uma brinca com pedaço de pau, e outra no show da Xuxa.
E para finalizar tanto lixo escrito, deixo aqui um bom castigo para
aquele que não quiser se rebelar: é bom que no teu destino
apareça um chefe cretino que queira te controlar, que vai
mandar até na tua mulher, que mande dentro do teu lar
Caso você leia isso, e deixe a coisa do jeito que está.


É isso


Edson Floyd



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

QUEM SERÁ TONINHO ?






Ele tem apenas sete anos e não é culpado pelo mundo onde
mora; porque não o fez e dele não participa, pois ainda não atina
entender porque a alegria demora.
Nem sempre come, e quando o faz é em caçarola, pois a
comida é cretina, a água cheira a creolina e mesmo assim, falta
toda hora.

Queria ele poder brincar, ter alguma diversão, poder estudar e
ter algum incentivo; queria poder olhar um mundo incrível, e não
só a escravidão.
Não podia e não queria entender, que o mundo que ele tem é de
duro labor, pois é grande o fardo e trabalhava feito gado, para
ter algum valor.
E assim Toninho vivia, sem ser criancinha lá no fim de
Pernambuco, onde o trabalho é sem fim, e o futuro é ruim, onde
se falta de tudo um pouco.

Filho de Barnabé com Maria e irmão de mais de dez, andava no
chão rachado, matuto que nem bicho do mato, e não sabia o que
era um réis.
Na barriga, meio quilo de bosta, das duas pernas uma é torta e
do nariz catarro escorria, no sangue a hemofilia que não dava
nem um dia de chance para viver, pois no sertão que ele vivia,
só ali sobrevivia quem se prepara para morrer.
No cabelo queimado a sol, uma fortuna de piolho lhe sorria, e
todo mundo percebia na cabeça do garoto, cabelo ruim que nem
galho morto, que a lêndea lhe cobria; que dali não sairia menino
saudável e risonho que tenha no futuro bisonho, nem um dia de
alegria.
E há muitos que pensam que não venha do Sertão algo bom e
folheado a ouro, pois os meninos tolos que vivem na cidade, não
sabem nem a quinta parte, que é aquele matadouro.

O pai na roça para os outros labutava, a mãe cozinhava quando
algo tinha; e a prole que chorava sem parar, esperava saciar a
fome que era amiguinha; não se acabava a fome desses
meninos, que choravam se sacudindo, e sonhavam em matar a
fome; que só pede um grão de fava, um pedaço de pepino.
Matavam a sede na baba sem ter a quem comida e água rogar,
passavam as horas pardas a imaginar em que rodada da vida, a
sorte pouse ainda, e venha auxiliar.
Pois não há outra escapada, quando a fome visitava as tripas, e
no canto da barriga a coluna é apertada, e no meio da quebrada
o choro é intenso, e não tem descanso nem alento, um corpo
franzino, se pondo a definhar.
Da carreira de menino tudo desnutrido, feio e fraco, que se
escondem em um barraco feito de barro do rio, se nota todo
arredio que é essa vida ingrata, a qual não traz ouro nem prata
para quem é vira lata, nesse mundo tão “gentil”.

Vida que presenteia, no fim dessa enorme teia, com seus dias
malfadados, a quem não saia machucado, pois vive bem a vida
quem não passou nem uma quinta no Sertão seco e brabo.
E não tem farinha no prato para a plebe que chora sem parar, e
por mais que a fadiga se apresse, por mais que a cara
envelhece, por mais que as pernas se estremecem, não tem
como não chorar; porque ali, por mais que se lute por um grão
de arroz, de cada dois meninos sem futuro garantido, nesse
mundo tão sinistro, não há comida para os dois.
E a verdade de Toninho, que é fraco e magrinho e nem sabe o
dia certo que nasceu, vai está escrito nesse poema, para ver se
a tua desculpa dá esperança a um ateu.

Nasceu em casa mesmo, em uma cama de capim, e dali em
diante, como um africano imigrante, conhece a vida pedante que
lhe fabricou assim; para então confiante, seguir verão adiante,
sem saber o que é um jasmim.
Pois não tem cor no sertão, e na fome não tem graça nenhuma;
não é bom morrer de sede, e sabe disso quem lá esteve, e não
só quem vê pela televisão.
Não mamava todo dia, pois leite no peito não tinha e nem massa
para ferver; comia quando tinha, e nem mesmo uma aguinha,
tinha para ajudar a crescer. Matar a sede é coisa rara, pois água
ali não há, e nem mesmo uma laminha, para por na cabacinha,
pode-se contar; pois o sol é fumegante, o calor é estonteante, e
a vida é de matar.

Toninho não compreendia essa realidade fadada à tristeza e a
dor, não sabia sua cabecinha onde estaria à estrelinha, que guia
até “Deus, o bom pastor”.
Disputando palma com as vacas magras, bebendo lama quando
tinha, esperava a noitinha a ajuda que não caia do céu, vivia
Toninho, magro e fraquinho, sem saber o porquê a vida, não lhe
dava um pouco de mel.
As duras penas ia vivendo, é bem certo que vendo os irmãos
morrendo, e a cada dia uma incerteza, pois assim é a realeza da
vida dos infortunados, que teu Deus dá um bocado, quando é
agraciado, com a esmola decimal
dos escolhidos seus.

De quem reza com tripa roncando de fome, com esperança, mas
sem nome, esperando que papai do céu não embrome, mas
antes veja a vida infame de um filho seu, o qual não teve crime
maior, não praticou horror algum, que não o de ser um sertanejo
plebeu.
Gente que não tem nem o MOBRAL, mas recita com ardor e
alegria, pai nosso, anjo da guarda e salve rainha, faz vigília e
ladainha, para ver se passa a fome e o descaso, que ponha fim
naquilo que mata gente, grama e gado, que ponha um fim nessa
vida mesquinha.

Então, no chão duro e rachado onde morre até calango, passava
a vida se perguntado por que não foi agraciado, pois não é de
bom bocado Deus ver seu filho sofrendo, e Toninho ia morrendo,
cada dia como um desgraçado.
Por ali não passa inglês para ver o que acontece, ninguém quer
saber da fome que a vida tanto tece, e se nasce um, morre três,
mostra assim toda vez o quanto à vida é bela; e da casa de
tapera, o ano todo Toninho espera para ver a ajuda do destino,
que sairá do intestino do Deus que o padre tanto venera.
E vivia a vida amarga de não ter nenhuma etapa no plano divino,
e semelhante a um beduíno, vivia o seu destino no deserto do
sertão; e como parte da salvação tinha que arrepender-se de
seu pecado crasso, de haver estraçalhado uma galinha no oitão.

Toninho quis fugir da morte certa na seca, e buscou a vida feita
através daquele pau de arara, e numa noite só com a cara,
desceu sem saber nada da capital que não lhe esperava e não
lhe devia respeito, e com aperto no peito, abraçou mais aquele
cabra.
Analfabeto de pai e mãe que nem dinheiro conhecia, foi
trabalhar na padaria de um gordo libanês, o qual só pagaria a
estadia se ali na caixinha, botasse muito dinheiro o freguês.
Trabalhando para comer sem ter nem onde deitar a cabeça,
Toninho pergunta a Têca se ele podia dormir no quintal dela,
porque igual a uma sentinela pedira ao patrão para dormir no
serviço, o qual lhe respondeu que era longe o paraíso, e é mais
perto a favela.

Têca deixou ele dormir bem perto do cachorro, que era magro e
horroroso, e quando latia babava, e jogava a sua lata na cabeça
de quem perto estava, de um modo ardiloso.
Toninho deitado ali se perguntava o que era esse tal de mar,
esse tal de rádio e essa tal televisão; perguntava sem saber
falar, também não tinha com quem conversar, pois não se fala
com um cão.
O cachorro rabugento lhe repassa por um ardimento umas dez
ou quinze pulgas, que se encarregam de fazer o ferimento, onde
não tem mais alento, uma coleção de verrugas.
Uma bela sarna foi o resultado da noite com o canino, e
parecido com um menino que não mede conseqüência, Toninho
sem peso na consciência mete a mão na coceira em frente ao
freguês, que espalha com rapidez a nojeira que tinha visto, e se
não fosse por um amigo, tinha falido rapidíssimo, a padaria do
libanês.

Mandado embora a faca, corre fraco pela praça sem saber onde
parar, e não tendo mais força para correr, não tendo mais o que
fazer, resolver então descansar.
Sentado no banco olhando para o tempo e inquirido sobre a
vida, nem nota a senhorita sentada bem ao lado, que pergunta
com cuidado sobre a vida do rapaz, pois não o tinha visto
jamais, naquele banco frio de cimento, e como não tinha
esquecimento, queria saber o que ali o traz.
Depois de tudo explicado era ali o ponto fraco que ela precisaria,
pois está difícil na cercania, pegar um matuto tão descuidado.
“Vende aqui esse mato que tu vai ganhar dinheiro com isso, e
não te preocupes, meu amigo, em saber do que se trata, pois
vale tanto quanto a prata e dá rumo ao indeciso, pois mostra o
paraíso para quem vem para esta praça”.

Em dois dias chega a policia que nem quis saber quem
forneceu, baixa a porrada no Toninho que apanha igual burrinho,
sem saber o que aconteceu.
Na prisão, divide cela com mais trinta onde só cabe dez, e
lembra da vida seca no sertão, onde sorriso não havia, água era
alegria, e Deus tinha fiéis; onde a vida é sempre dura, doença
nunca cura, onde se morre de revés.
Na cadeia apanhou por ser franzino, fraco e inocente; aprendeu
muito tarde, que a vida não reparte o bolo de forma descente, e
é esse mundo de carne que é a melhor parte, que Deus te dá de
presente.
Saiu de lá um dia em uma fuga improvisada, onde deu uma
facada em um policial demente, o qual agonizou igual gente, até
morrer no corpo da guarda.

Toninho era agora procurado por matar policeiro, que em
Pernambuco se acha dono da navalha e que decide quem
morrer primeiro; e agem assim porque não sabem eles, que faca
não só tem a deles e que é preciso saber viver, e que longe da
farda, é um ser que come e caga e que vai do mesmo modo
feder; não percebendo que não são mais nada, que um simples
capataz atrás de mais dinheiro comer.
Em Pernambuco policia só anda em bando, não para dar
segurança ao cidadão, mas sim para dar substância quando
propina ele abocanha e faz calar o peão; porque eles têm medo
de roubar o nobre, mas não tem medo de roubar pobre, o qual matam de
montão.
E parece que desconhecem que é fácil ficar brabo quando se
anda em bando, que fica todo mundo forte, achando que tudo
pode, verborreando com seu bocão; e que atrás de um 38
enferrujado, todo mundo fala alto, todo mundo vira macho, e
quer sempre ter razão; mas não sabe que por dentro daquela
casca, temendo uma intentada, existe um tremendo cagão.

Com medo Toninho fugiu e tentou salvar a pele, mas não tinha
quem lhe desse uma fuga amiga, porque depois do muro da
cadeia, cada um tomou a veia, de fugir para sua vida.
Voltou para o sertão em um caminhão de descarrego onde
pagou a viagem com suor quente do rosto, e cansado, doente e
roto, não sabia a solução que a vida ia dar, pois a vida bem
vivida com tanta dor e ferida, nele não podia está.

A miséria no sertão não havia diminuído, pelo contrário ela
aumentava, e toda a pequena vizinhança, de tanto sofrer sem
esperança, lá não restava nada.
Alguns pés de xiquexique, um ou outro de mandacaru só ficaram
porque não podiam correr, e igual um condenado, sofrem assim
calados, esperando para morrer.
O chão ainda rachado e a seca braba e triste ensinam a nosso
Toninho, onde é que Deus existe, e se culpa Toninho tem, é a
de um réquiem, desse destino triste.

No Sertão garoto já nasce marcado para morrer, onde é uma
loteria chegar aos dez anos de vida se antes não desfalecer;
coisa que na capital, onde tem água, escola e emprego, onde
menino baderneiro vive no ar condicionado, sem saber o fim
fadado dos que já nascem marcados, os quais Deus gosta de
fazer sofrer.
E Toninho viveu assim com a culpa que você julgar, sem ter
nenhuma ajuda de  teu Deus, do deputado ou do prefeito de lá; que
já nasceu com fim marcado para uma vida vadia, totalmente
arredia à felicidade popular, que só dá cama e comida, água e
moradia, para quem Deus se engraçar.

E esse Toninho é a figura de oito em cada dez que brotam no
sertão, que escutam fedendo a suor, as palavras do padre
gordo, falando da salvação, o qual dá todas as dicas para uma
felicidade rica, no reino de Sião; enquanto essa vida de merda
come as suas tripas, e se consome noite dia a espera de um
milagre, que salve pelo menos a metade, dos que morrem no
Sertão.
E por fim te pergunto de quem é a verdadeira culpa de quem
morre nessa história, e espero que tu não venhas me dizer, que
nisso tudo não há culpado, e que fica por isso mesmo, essa
história de lamento, desse povo derrotado.

Será, pois a culpa dos pais que fabricam tantos meninos por
falta de educação? Será a culpa do governo que deixa o povo
faminto sem dar nenhuma solução? Será então a culpa desse
sistema bruto, que se alimenta de veias, que consome tanto
coração? o qual é mal ao infinito, que devora todo vivo, que vive
a sua expiação?

Ou será por fim a culpa dessa vida que não podemos mudar e
que dita nosso destino, que mata com desatino tanto menino ao
nascer, que devora sem empecilho, a vidinha de um menino,
que tanto queria crescer?
E se a culpa for da vida, se assim for teu pensar, te pergunto
ainda: quem é que essa vida há de comandar?
E se teu Deus é tão bondoso que transforma menino em anjo, e
tu segues assim com teu zelo santo a pensar, sei que devo
advertir-te, que na velocidade que se morre ali, o céu há de lotar.


É  isso

Edson Floyd.